debaixo do céu azul

Acabei de rabiscar o céu de azul escuro e enchi a folha de pontinhos brancos reluzentes para dar enfâse á frase; «estava um céu estrelado». Por fim, desenhei uma lua oval (da qual confesso não ter gostado muito), mas também para o efeito que iria ter pouco importava. Queria fazer destes meus rabiscos um cartaz que te mostra-se como ainda me lembro daquela noite em que desejei que ter ao meu lado.
Desenhei-me agora a mim, e a ti. Estamos frente-a-frente. Tenho uma caixa de cartão na mão. Rabisquei-a como se estivesse cheia e pesada, realmente pesada. Quebrei o espaço que havia entre nós e entreguei-te a caixa (pintei-a mal, pintar nunca foi o meu forte), surgiu um balão de fala meio torto com um aspecto um pouco tosco por cima da minha cabeça - «toma, é para ti!» Sorri gentilmente em tom de desafio. Agarras-te na caixa e ias-te desequilibrando (eu avisei que estava mesmo pesada.) Ficas-te a admirar a caixa durante imenso tempo, comecei a interrogar-me porque é que te limitavas a apreciar a caixa e não a abrias e vias o que estava lá dentro. Leste-me os pensamentos através do balão em forma de nuvem que saíu por cima dos meus cabelos ora castanhos ora loiros, consuante  intensidade da luz da lua cheia, e largas-te a caixa onde calhou - «devolve isso de onde as tiras-te, por favor» - Como poderias saber o que estava lá dentro se nem sequer a abris-te? De facto não tinha pedido autorização para as tirar de onde estavam, mas com tantas que por lá havia achei que não notariam a diferença. Arrisquei. - «Porque é que queres que as devolva? São tuas agora!» - Senti a tua rejeição. - «Não as quero, vai pô-las no sítio.» - No fundo, até percebi porque é que não as queria. E fiz o que me pedis-te. Desenhei uma borracha deformada e apaguei a caixa. A seguir fiz aparecer mais uns quantos pontos reluzentes no céu azul escuro e mal pintado a lápis de cera. - «Assim até ganha outro encanto, não achas?» - Não podia deixar de concordar contigo, tinhas toda a razão. O céue stava ainda mais luzidío - «Ao trazer aquelas estrelas para ti, estava só a tentar com que te sentisses em casa, meu anjo.» - Agi mal ao tirá-las do céu, eu sei disso. - «Não preciso das estrelas, tenho-te aqui.» - Um tom leve de cor-de-rosa cobriu as minhas bochechas. Sentia-me mal por estar sempre a chamar-te para estares comigo, queria apenas compensar-te já que passas a maior parte do tempo a meu lado - «Agora tenho de ir meu amor» -  Aí caí em mim. Ele ia voltar. Para o céu, a sua casa (eu própria desenhei a casa dele, por isso sei que irá ficar bem, mas não ia deixar de ter saudades dele). Deu-me um beijo na testa (fazia-o sempre porque dizia que não queria faltar-me ao respeito, apesar de já lhe ter dito dezenas de vezes que queria que os lábios dele me tocassem de forma diferente) E foi ali, depois daquele beijo, que no meio da imensidão da Terra me deixas-te sozinha e eu vi voar o teu belo par de asas angelicais, pela última vez. Amanhã, quando entoar o teu nome nos meus pensamentos, sei que não vens. Pelo menos não amanhã. Tenho sempre esperança que voltes, mais cedo ou mais tarde.

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